Dias
após proibição, bingos funcionam livremente
em SP

JOGO
CLANDESTINO
Os
Bingos Santo Amaro e Teotônio Vilela, que foram visitados
pela reportagem do jornal O Estado de São Paulo,
funcionavam livremente.
Legislação. Desde o fechamento
dos bingos, em 2004, várias casas continuaram funcionando
com base em liminares concedidas pela Justiça Estadual
até 2007. Naquele ano, entretanto, uma decisão
do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que somente
a União e a Justiça Federal poderiam decidir
sobre o assunto, o que derrubou a maioria das decisões
provisórias que mantinham os bingos abertos.
Para
o Ministério Público Estadual, não
há dúvidas de que as duas casas visitadas
pela reportagem são ilegais. "Quem está
ali dentro está praticando contravenção
penal. Estão agindo contra a lei e abrindo um precedente
enorme a favor do crime organizado", afirma o promotor
de Justiça Tomás Busnardo Ramadan, do Centro
de Apoio Criminal do Ministério Público de
São Paulo. Ele diz que não há liminar
expedida para esses dois locais e vai tomar providências
para que os bingos sejam fechados o mais rápido possível.
De
acordo com o presidente da Associação Brasileira
dos Bingos (Abrabin), Olavo Sales, a aprovação
da lei dos bingos seria essencial para evitar ilegalidades
como essas. "Quando há algo proibido, sempre
aparece alguém para explorar."
ENDEREÇOS
ESTÃO NA INTERNET
Encontrar
um bingo em funcionamento em São Paulo não
é difícil. Para chegar a um deles, basta uma
rápida pesquisa na internet para encontrar endereço,
telefone e horário de funcionamento de várias
casas na cidade. A instrução que acompanha
cada anúncio é sempre ligar antes de ir, para
garantir que a casa não foi fechada pela polícia
depois que a informação foi divulgada na rede.
Funcionários
de bingos chegam a atender ao telefone anunciando o nome
e a atividade: "Bingo Santo Amaro, boa tarde",
diz a atendente para quem liga no número divulgado
referente à casa.
Os
anúncios normalmente são colocados por usuários
anônimos em blogs e sites que apoiavam o projeto de
legalização das casas de bingo que tramitava
na Câmara dos Deputados e foi vetado na terça-feira.
A maioria das casas é conhecida pelos frequentadores,
pois boa parte dos bingos já foi fechada no passado
e voltou a reabrir. "É uma briga de gato e rato.
Esse pessoal abre o bingo, nos mobilizamos para fechá-lo,
mas eles acabam reabrindo outra vez", disse o promotor
Tomás Busnardo Ramadan.
Segundo
ele, o grande motivo por trás disso é a imensa
quantidade de dinheiro que o negócio envolve. "Tem
muito dinheiro por trás, inclusive empresas internacionais
atuando", afirmou. Por isso, ele disse que comemorou
a derrubada do projeto de legalização do jogo
que tramitava no Congresso. "Essa decisão da
Câmara foi recebida com muita alegria, pois vai ajudar
a conter a ação do crime organizado que lucra
com esses jogos", explicou.
Para
a Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin),
o raciocínio é contrário. "O jogo
hoje é uma prática feita pelas quadrilhas.
Queríamos ter trazido empresários para tomar
conta desse negocio", lamentou o presidente da entidade,
Olavo Sales. Segundo ele, há pouquíssimos
bingos operando com liminar em São Paulo e a maioria
das casas de jogos em funcionamento é irregular.
"Quem é que se alimenta e gosta de coisas proibidas?
É o crime organizado. Cada vez que se cria uma proibição,
quem ocupa esse espaço é a contravenção",
disse.
Nas mesas de jogo e nos blogs que divulgam os bingos abertos,
a percepção é parecida. "Eles
aumentaram o salário deles em 6o%, mas não
aprovam uma lei que beneficiaria muito trabalhador",
disse uma senhora no Bingo Teotônio Vilela. Ela afirmou
que frequenta o local diariamente e nunca conheceu alguém
que teve problemas com o jogo. "Se o dinheiro é
meu e eu quero jogar, qual é o problema?"
O
Estado de São Paulo 19/12/2010
Rodrigo Burgarelli