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Câmara barra projeto
que libera bingos

Em uma sessão de alta voltagem verbal, marcada por discussões - e até acusações -, a Câmara dos Deputados barrou hoje projeto de lei que autorizava a atividade de bingos, por 212 votos contra, 144 a favor e 5 abstenções. O texto final, que excluía as máquinas caça-níqueis e previa a destinação de receita para áreas como saúde e segurança, seguiria para o Senado Federal e sanção presidencial, caso fosse aprovado.

A redação rejeitada pela Câmara previa a legalização dos bingos, determinando que as casas tivessem dispositivos interligados à Receita Federal e ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para permitir o controle da movimentação financeira e impedir a lavagem de dinheiro. Os estabelecimentos deveriam ficar localizados a pelo menos 300 metros de distância de escolas e templos religiosos.

A licença e fiscalização dos jogos caberiam ao Ministério da Fazenda, por meio da Receita Federal do Brasil, com apoio da Polícia Federal. As promessas, no entanto, não convenceram os parlamentares, que demonstraram preocupação com o destino do dinheiro arrecadado e eventual benefício ao crime organizado.

Projeto. O projeto barrado pela Câmara determinava que 14% da receita fossem destinadas para a área de saúde, 1% para segurança pública, 1% para esporte e 1% para cultura. Previa que os estabelecimentos tivessem fachada discreta, sem exibir ao exterior as atividades e impedissem a entrada de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos pais, e de pessoas viciadas em jogos de azar (ludopatas), que deveriam ser listadas em um cadastro nacional.

A premiação dos bingos deveria ser, no mínimo, de 70% do valor arrecadado com a venda de cartelas; no caso de videobingos (realizado em monitor de vídeo, com exibição de números, figuras, bolas), o valor seria, no mínimo, de 80% dos ingressos totais vendidos a cada 10 dias.


Rejeição uniu governo, oposição e bancadas religiosas

A rejeição aos bingos uniu oposição, setores do governo, bancadas católica e evangélica, que temiam os efeitos desencadeados com a medida, como lavagem de dinheiro e financiamento do crime organizado. Na semana passada, o tema entrou na pauta em regime de urgência em um acordo que envolveu o governo, os governadores e líderes partidários.

O governo queria aprovar questões do pré-sal; os governadores desejavam a prorrogação do Fundo da Pobreza e a aprovação do projeto de compensação por perdas de isenção tributária para exportações. Com isso, vários partidos aceitaram votar os bingos, sem se comprometer com sua aprovação.

Apesar de outros textos seguirem em tramitação no Congresso, não há clima político para aprová-las, ao menos no início da gestão Dilma Rousseff. Assim, a futura presidente não terá de se posicionar e se sujeitar ao desgaste de vetar ou sancionar a proposta. Não à toa, o futuro ministro da Justiça, deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), operou ontem no plenário pela derrubada do projeto.

Rafael Moraes Moura - O Estado de São Paulo


''Nº de clandestinos vai explodir''

O veto dos deputados ao projeto dos bingos deve mudar também a paisagem de São Paulo. Os bingos Imperador, na Avenida Sumaré, e Imperatriz, na Avenida 23 de Maio, imóveis de 8 mil m² que há anos estão vazios, agora devem mudar de uso.

"Vou vender ou alugar, desisto. Ali, não abro mais", disse o proprietário dos imóveis, Jair de Paula, de 48 anos, apontado como maior empresário do setor em São Paulo e que mantinha as casas, esperando a autorização da volta dos bingos. Ele deve desativar também outras 10 casas de bingo vazias que tem na cidade. São imóveis no Itaim, na zona sul, na Avenida Cruzeiro do Sul, zona norte, e na Avenida Angélica, zona oeste. Todos devem dar lugar a outro tipo de estabelecimento.

"Para esse setor, eu não dou mais emprego. Penso até em sair do País", disse de Paula. "Foi uma hipocrisia muito grande. O jogo não vai acabar o que vai acontecer é que o número de clandestinos vai explodir. Perderam uma chance de regulamentar o setor e colocaram o crime em primeiro lugar."

O presidente da Federação Brasileira de Bingos (Febrabingo), Carlos Eduardo Canto, afirmou que não pretende "capitanear" outro projeto para regularizar os bingos. "Temos de esperar uma posição do presidente Lula. Ele não pode deixar o setor completamente à mercê. Se não houve regularização, que mostre meios de criminalizar de vez", disse.

Vitor Hugo Brandalise - O Estado de São Paulo