Legalização
dos jogos
no Brasil

BRASÍLIA – A votação da urgência
do projeto que legaliza os bingos, na noite desta quarta-feira,
na Câmara, foi marcada por acusações
de compra de parlamentares pelo lobby do setor. No total,
258 parlamentares votaram a favor da apreciação
imediata do texto, apenas um a mais que o mínimo
necessário. O deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ)
disse, durante a sessão, que foi procurado por um
funcionário do Ministério da Justiça
que queria barrar o projeto e dizia saber que houve pagamento
de propina:
-
Foi-me dito por esse representante do Ministério
da Justiça que muito dinheiro está correndo
para que se vote e para que se aprove, ainda nesta semana,
matéria referente à legalização
dos bingos e dos caça-níqueis nesta legislatura.
Na
votação, o mais exaltado ao denunciar a corrupção
foi Fernando Chiarelli (PDT-SP).
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No meu entender, quem estiver votando a favor da urgência
e a favor do projeto, no linguajar do deputado Marcelo Itagiba,
está levando uma graninha para colocar no bolso.
A corrupção está rolando solta aqui.
Vamos ver ali, no placar, quem está ganhando dinheiro
de traficante. Traficante, hoje, eu vi pelo menos uns 200
rodando aqui em Brasília. Eles não estão
nos morros do Rio de Janeiro, não. Estão aqui,
fazendo lobby para aprovar o bingo. E vão aprovar
o bingo, os molequinhos dos traficantes.
Dois
deputados do PDT, partido de Chiarelli, estão à
frente da pressão pela aprovação dos
bingos: Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força,
e João Dado, ambos de São Paulo, circularam
pelos corredores da Câmara com dirigentes da Associação
Brasileira dos Bingos (Abrabin), tentando convencer colegas
da necessidade de votar a urgência para a votação.
Mas
há outros pedetistas contra o projeto. Um deles,
Miro Teixeira (RJ), fez um discurso duro no plenário
e disse ao GLOBO que foi procurado pelos representantes
desse lobby.
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Disse a eles que não quero estar na companhia de
pessoas que subornam. E digo publicamente também
– disse Miro, que, no plenário, após
a aprovação da urgência, afirmou que
não gostaria de estar na foto ao lado dos vencedores.
– Isso não é o PDT. Não foi uma
noite agradável e não pode parecer um baile
da Ilha Fiscal.
Um
acordo dos líderes permitiu a aprovação
porque vinculou a apreciação do requerimento
de urgência do projeto dos bingos à votação
do texto da prorrogação da Lei Kandir, que
interessa a governadores. O mérito da proposta para
legalizar a modalidade de jogo deve ser votado na semana
que vem.
Legalização dos cassinos
também é defendida
Miro disse que há parlamentares contrariados com
a obrigação de votar a favor da urgência
da legalização dos bingos para desobstruir
a pauta. Esses deputados, segundo ele, vão se opor
ao projeto, durante a votação de mérito,
na semana que vem. A urgência para o projeto dos bingos
já havia sido rejeitada na noite anterior, quando
os pró-legalização conseguiram apenas
226 votos.
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Nunca vi isso antes, votar tão rápido um assunto,
duas vezes, de um dia para o outro – disse Manuela
D’Avila (PCdoB-RS).
Devanir
Ribeiro (PT-SP), que votou a favor da urgência do
projeto, disse nesta quinta-feira que, no mérito,
será contra a legalização desse jogo.
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Votei em poder aprovar a Lei Kandir. Aqui é assim,
uma vela para o santo e outra para o diabo – disse
Devanir.
Também
à frente da aprovação dos bingos, Silvio
Costa (PTB-PE) defende até a legalização
de cassinos. Costa defende o lobby e considera a atuação
desse grupo no Congresso tão legítima quanto
à pressão de sindicatos das mais diversas
categorias, de banqueiros e de empresários.
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O pessoal do bingo fica abordando nos corredores como todo
mundo. Sou a favor da legalização e do lobby
também – disse Costa. – O pessoal que
é contra (os bingos) e diz que essas abordagens são
não republicanas. A mim, nenhum deles ousou comprar.
Não sou a bala que matou Kennedy e nem a última
Coca-Cola do deserto. Desafio qualquer macho ou fêmea.
Um
dos dirigentes do bingo mais atuantes no Congresso é
o presidente da Abrabin, Olavo Sales Oliveira. Ele está
sempre acompanhado de Paulinho da Força e de João
Dado, que foi relator do projeto na comissão especial.
A assessoria de imprensa da Abrabin informou que Olavo só
irá se pronunciar após a votação
final. Paulinho não retornou às ligações
e a assessoria de Dado disse que ele não se manifestará
até a votação final.
Em
nota, a Abrabin argumenta que a legalização
dos bingos irá injetar mais de R$ 7 bilhões
em impostos. “Se aprovada pelo Congresso e sancionada
pelo presidente da República, a proposta permitirá
a legalização e disciplina, com total transparência,
da atividade a ser exercida pelas casas de bingo, que passarão
a atuar sob normas rígidas de fiscalização”.
O Globo - 10/12/2010